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    “Somos livres. A internet é feita por nós. Logo, a internet é livre.” Esse falso silogismo confirma a fragilidade de deduzirmos algo a partir de quase nada. Sem dúvida alguma, a internet descentralizou o poder de produção e disseminação de conteúdo, antes nas mãos de grandes corporações tradicionais. Mas até que ponto não estamos nas mãos de outros grandes, só que agora em ambiente digital?

    Muitos apontavam, com preocupação, que seríamos conhecidos como a “geração da revolução de sofá”. Porém, alguns movimentos sociais mundo afora demonstram a capacidade de arregimentar pessoas nesse meio por uma causa comum. Em 2013, o Brasil presenciou diversos protestos que nasceram e se desenvolveram no ambiente virtual, fora dos grandes círculos de influência e sem lideranças marcantes.

    Talvez, o problema esteja exatamente neste ponto: o descontentamento das ruas mostrou-se desgovernado, em rumos indefinidos e superficialidade latente. Essa rede livre de mobilização popular deixou para trás certos legados que ajudam a explicar o clima polarizado atual – especialmente na esfera política.

    Com base instável, essas reivindicações promoveram uma ruptura entre o protesto e a revolução. Nesse contexto hiperconectado, o protesto ganha ares de performance e desvia-se de sua finalidade, isto é, a transformação social. Assim, a confiança nas instituições se esvai (políticos mentirosos e corruptos e a suspeita das mídias tradicionais), e o terreno da desorientação geral mostra-se fértil para o desenvolvimento de fenômenos como a pós-verdade, as posições extremistas (contra tudo e contra todos) e o surgimento das bolhas sociais.


    Comportamento digital

    Na internet, a noção de vergonha e autocrítica reduzem sensivelmente, levando a posições mais enfáticas e antissociais. Nossa capacidade de concentração já não é a mesma, e estamos cada vez menos dispostos a investigar as verdades apresentadas ou os contextos envolvidos. Além disso, os algoritmos e as estruturas dessas novas mídias contribuem para reforçar a propensão que temos em consumir informações alinhadas a ideias preconcebidas, sejam elas verdadeiras, falsas ou distorcidas.

    Segundo o psicoterapeuta norte-americano Aaron Balick, a ausência de complexidade nos relacionamentos emocionais nas redes sociais e a redução da empatia e do diálogo alimentam a polarização ideológica. Balick afirma ainda que “em encontros cara a cara (…), o diálogo atenua o pensamento polarizado simplista ao permitir que vejamos a humanidade do outro.”


    Câmaras de eco ou caixas de reverberação

    Com a baixa confiança nos representantes legais e na mídia tradicional, buscamos formas alternativas de engajamento, bem como outras fontes de informação, nem sempre comprometidas com a apuração dos fatos por diversos ângulos.

    Quando compartilhamos algo, reforçamos também a sensação de pertencimento a determinado grupo e nutrimos o sentimento de contribuição social. Os algoritmos do Facebook, por exemplo, apresentam conteúdo com base em nossas reações, estimulando as ideologias que já carregamos, sem espaço para debates ou questionamentos. Em suma, ficamos isolados em dicotomias tóxicas à sociedade, limitados às mesmas ideias e argumentos que nos são confortáveis. Trocamos as posições pluralizadas por verdades arbitrárias, absolutas e intolerantes.

    Separar notícias mal escritas, com levantamento deficitário, das intencionalmente fraudulentas, também chamadas fake news, é das tarefas mais difíceis. Aproveitando dessa complexidade em separar o joio do trigo, empresas especializadas ganham milhões ao distribuir de maneira industrial mensagens no mínimo duvidosas por meio de robôs ou bots (perfis automatizados nas redes sociais). Pelo volume gerado, essas notícias, amparadas por ideias pré-estabelecidas de seus leitores, inflam artificialmente a aceitação popular, comprometendo a qualidade do debate e fortalecendo posições mais radicais.

    E se a internet não for a grande vilã?
    De acordo com pesquisa realizada pela Universidade de Brown, nos Estados Unidos, a polarização cresceu mais em grupos com acesso limitado à internet. Ou seja, a partir dessa premissa, precisamos relativizar o papel desempenhado pela mídias sociais quanto à sua responsabilidade quase exclusiva na polarização dos debates.

    A TV por assinatura, revistas especializadas e outros veículos com foco restritivo também podem dividir essa culpa, o que nos leva a pensar que, provavelmente, a polarização ideológica é causada por diversos agentes e fatores em convergência.

    Navegamos em águas turbulentas e de baixa visibilidade. Estudos e análises de dados nos orientam um pouco nesse clima de inquietação e nervos à flor da pele. É bom destacar, porém, que a polarização não é fenômeno nacional isolado. Percebemos suas ramificações nefastas além de nossas fronteiras.

    A tecnologia na comunicação potencializa os encontros, as trocas e o aprendizado. Estruturar sociedades em relações saudáveis, baseadas na concessão, compreensão e empatia, pode ser um belo caminho nesse intento. O exercício da humanidade nos aproxima verdadeiramente, mesmo quando a conexão Wi-Fi ou 4G estiver fora da área de cobertura.

    Fontes:
    Ponto Eletrônico
    BBC Brasil – Entrevista com psicoterapeuta
    BBC Brasil – Polarização cria ‘bullying político’ em escolas
    O Globo
    Folha de S. Paulo
    Nexo

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